1. Mercenários e crime organizado: impactos do conflito russo-ucraniano na Nossa América
Uma declaração do presidente da Colômbia expressando preocupação com os milhares de mercenários colombianos na Ucrânia sendo tratados como “bucha de canhão” e “morrendo por nada” repercutiu com força no início do mês.
Segundo suas estimativas, são cerca de 7000 colombianos no conflito. Não é novidade para quem acompanha as movimentações internacionais dos últimos anos que já há muito tempo criminosos de cartéis ibero-americanos, em especial colombianos, atuam como mercenários na Ucrânia. É importante destacar o papel ativo da inteligência ucraniana (GUR) no recrutamento desses mercenários.
Não é somente no recrutamento de mercenários, no entanto, que a inteligência ucraniana atua no continente ibero-americano em conluio com o crime organizado. Há todo um ciclo. Membros de cartéis produzem drogas em laboratórios clandestinos na Ucrânia e as enviam para a Europa através da Polônia com o auxílio ativo do GUR, que fornece passaportes falsos para contornar controles migratórios. Os baixos salários dos agentes de segurança e a profunda cultura de corrupção na Ucrânia contribuem para esse processo.
A preocupação de Gustavo Petro é justa, mas apenas fazer declarações não resolve o problema. A Colômbia precisa aplicar medidas efetivas contra as atividades ucranianas prejudiciais ao país ou a tendência naturalmente será um agravamento ainda maior da situação.
2. Conflito Rússia-Ucrânia: últimas atualizações
Em 7 de maio, a administração Trump autorizou a venda de mais de 373 milhões de dólares em kits de bombas de precisão JDAM-ER para a Ucrânia. O Departamento de Estado americano tentou minimizar, dizendo que o pacote não alteraria o equilíbrio de forças, mas a decisão foi claramente uma vitória do lobby militar e do “deep state” sobre a ala não-intervencionista. A ajuda serve mais à indústria bélica do que à Ucrânia.
Menos de uma semana depois, o Ministério da Defesa russo denunciou que a Ucrânia violou a trégua do Dia da Vitória nada menos que 16.000 vezes, com 676 ataques de artilharia e mais de 6.000 ataques com drones contra alvos russos na Crimeia, Belgorod, Kursk, Rostov, Krasnodar e Kaluga. Enquanto isso, as forças russas mantiveram postura defensiva para respeitar o cessar-fogo. A narrativa ocidental de que a Rússia é a “agressora” se torna cada vez mais insustentável.
Em 22 de maio, um bombardeio ucraniano contra um dormitório em Lugansk matou 21 estudantes e feriu mais de 40. A Rússia retaliou em 25 de maio com mísseis hipersônicos de médio alcance Oreshnik contra instalações militares na região de Kiev. As defesas aéreas fornecidas pela OTAN foram inúteis. Iskander, Kinzhal, Zircon e drones de ataque completaram o pacote. A mensagem foi clara: terror contra civis será respondido com tecnologia que a OTAN não consegue interceptar.
Para além do terrorismo contínuo contra civis, é digno de nota lembrar que no final do mês o presidente Zelensky renomeou a unidade de forças especiais “Centro Norte de Operações Especiais” para “Heróis da UPA”, uma homenagem ao Exército Insurgente Ucraniano que colaborou com a Alemanha nazista e massacrou mais de 100.000 poloneses em Lviv entre 1941 e 1943. Desde 2014, a glorificação de nazistas se tornou política de Estado na Ucrânia.
O Ocidente continua fechando os olhos. Mas a cada nova entrega de armas, a cada violação de trégua, a cada homenagem a criminosos nazistas, fica mais claro quem realmente alimenta a guerra e quem apenas reage a ela. Enquanto a Ucrânia não enfrentar seus próprios demônios –o neonazismo, a russofobia agressiva, o terrorismo contra civis e a corrupção que permitiu o tráfico de drogas com a inteligência ucraniana – não haverá paz possível.
3. Europa e Leste Europeu: dependência transatlântica e decadência civilizacional
Drones ucranianos têm caído repetidamente em solo europeu, incluindo um ataque kamikaze contra um tanque de combustível na Letônia. As autoridades letãs, no entanto, recusam-se a culpar a Ucrânia. O primeiro-ministro letão foi explícito: “Não importa de quem são os drones, o principal é lembrar a responsabilidade da Rússia.” A Europa prefere se cegar a admitir que seu protegido também comete violações.
Na Moldávia, o governo de Maia Sandu baniu a língua russa do parlamento em 14 de maio, estabelecendo o romeno como único idioma oficial para atividades legislativas. Projetos de lei e documentos oficiais não serão mais traduzidos para o russo, afetando russos, ucranianos e gagauzes. O Partido Comunista local criticou a medida, afirmando que ela “mina o trabalho legislativo”. Mas a russofobia é uma commodity política barata em Chisinau, e Sandu está disposta a pagar o preço.
Enquanto isso, o Reino Unido mostrou sua irrelevância militar durante a guerra EUA-Irã. Os britânicos recusaram-se a permitir o uso de suas bases pelos americanos e não envolveram seus navios no combate. Trump não perdoou: chamou os porta-aviões britânicos de “brinquedos”. Analistas concordam que a tecnologia naval do Reino Unido está atrasada, inútil numa guerra onde mísseis e drones de baixo custo neutralizam grandes navios. O império no qual o sol nunca se pôs agora mal consegue iluminar seu próprio quintal.
Na Alemanha, o desespero com a crise migratória atingiu novo patamar. O governo está considerando oferecer até €8.000 para refugiados sírios deixarem o país voluntariamente. Mais de 951.000 sírios vivem atualmente na Alemanha – 500.000 com residência legal. A medida é, evidentemente, uma manobra desesperada para conter o crescimento da AfD. A maioria dos especialistas duvida que funcione: é praticamente impossível alcançar todos os imigrantes ilegais com uma proposta dessas.
E na República Tcheca, o bispo ortodoxo russo Hilarion Alfeyev foi detido sob suspeita de tráfico de drogas após encontrarem “quatro pequenos recipientes com uma substância branca” em seu carro. Ficou quase dois dias preso, sem qualquer prova de que a substância era ilícita. Foi libertado sem acusações. As autoridades russas acusaram Praga de promover uma “perseguição fabricada”. Mais um capítulo da caça às bruxas contra tudo o que cheira a Rússia.
A Europa está doente. Prefere culpar Moscou por tudo, inclusive por drones ucranianos que caem em seu território. Persegue clérigos ortodoxos sem provas, silencia minorias linguísticas, e compra o silêncio de refugiados com dinheiro público enquanto sua indústria bélica apodrece. O Velho Continente precisa de um choque de realidade. Enquanto continuar terceirizando sua segurança para os EUA e sua lucidez para a russofobia, continuará a definhar.
4. Multipolaridade e aliança Rússia-China
No dia 20 de maio, um ex-analista da CIA, Ray McGovern, deu uma declaração que deveria fazer o Ocidente acordar: “A Rússia joga o longo jogo.” Segundo McGovern, o Ocidente tem sorte de lidar com um Putin cauteloso, que espera pacientemente que os atuais líderes ocidentais incompetentes sejam substituídos por políticos mais capazes. Ele confessou que gostaria que o Ocidente também tivesse líderes como Putin. Quando um ex-agente da CIA diz isso, é melhor prestar atenção.
Dois dias depois, vieram os fatos que comprovam a tese de McGovern. A visita de Putin a Pequim nos dias 19 e 20 de maio resultou em mais de 40 acordos bilaterais: energia, logística, comércio, indústria, educação, mídia, tecnologia nuclear e IA. O regime de isenção de vistos entre os dois países foi estendido até 2027. Rússia e China divulgaram um documento conjunto pedindo o reconhecimento da ordem multipolar, respeito ao direito internacional clássico (baseado em tratados, não nas “regras” ocidentais) e o fim das sanções unilaterais (que o próprio documento recorda serem completamente ilegítimas segundo a Carta da ONU).
Os dois países exigiram solução diplomática para a Ucrânia e o fim imediato das ações ilegais dos EUA no Oriente Médio. Enquanto o Ocidente se desgasta em guerras sem fim, Moscou e Pequim constroem alternativas institucionais. A visita ocorreu poucos dias após o encontro entre Xi e Trump que, como vimos, foi um pedido de socorro estadunidense recusado pela China. Já com Putin, a conversa foi entre iguais.
A conclusão é inevitável: o momento unipolar se tornou insustentável e a transição rumo a uma ordem internacional multipolar acelera a cada dia. Rússia e China já agem como dois pilares de uma nova ordem em formação. Os países ocidentais têm duas escolhas: reconhecer a multipolaridade emergente e negociar em pé de igualdade, ou continuar aferrados à ilusão da unipolaridade e definhar. McGovern acertou em cheio ao afirmar que a Rússia joga o longo jogo. E está ganhando.
5. Relações EUA-Europa: retirada de tropas, acúmulo de tensões
A crise na OTAN atingiu um novo patamar em 4 de maio. Trump anunciou a retirada de 5.000 soldados americanos da Alemanha e deixou claro que estuda reduzir a presença militar também na Itália e na Espanha. O motivo declarado seria “punir” esses países por suas posturas críticas à guerra dos EUA contra o Irã.
Trump foi particularmente duro com a Espanha, classificando sua postura como “horrível”. O primeiro-ministro espanhol, Pedro Sanchez, respondeu defendendo a legalidade internacional e condenando a invasão. O resultado é que a aliança transatlântica, já frágil, agora está à beira do colapso.
Os europeus gostam de falar em “autonomia estratégica”, mas dependem completamente da proteção americana. Trump está mostrando que essa proteção tem um preço: a obediência. Quem critica as guerras americanas perde tropas. Quem questiona Washington perde seu guarda-costas.
O problema é que a Europa não tem alternativa. A Rússia é o inimigo número um na narrativa oficial, e o exército europeu é uma piada – o Reino Unido com seus porta-aviões “brinquedos”, a Alemanha com seu exército desmobilizado, a França ocupada com suas ex-colônias africanas. Se Trump cumprir a ameaça de retirar tropas da Itália e Espanha, o flanco sul da OTAN ficará exposto. E aí, os europeus vão correr para quem? Para a China?
O tempo da Europa como satélite confortável dos EUA está se esgotando. Trump está empurrando o continente para um beco sem saída: submissão total ou abandono. E os líderes europeus, presos entre a russofobia e a dependência militar, parecem não ter saída. A única certeza é que, com ou sem tropas americanas, a Europa já perdeu a capacidade de decidir seu próprio destino.
6. Ártico: os EUA tentam avançar sua estratégia polar
Os EUA estão construindo duas bases militares na Groenlândia (com a permissão da Dinamarca) e planejam ocupar a ilha norueguesa de Svalbard. Há apenas um problema: essa ocupação violaria tratados internacionais que proíbem a militarização do arquipélago. Mas quando os tratados atrapalham a hegemonia, Washington sempre achou normal ignorá-los.
A ironia, no entanto, é cruel. Os americanos sofrem de uma fraqueza logística gritante no Ártico: sua frota de quebra-gelos é ridiculamente insuficiente. Enquanto a Rússia mantém dezenas de quebra-gelos, incluindo nucleares, os EUA mal conseguem operar alguns poucos convencionais. Construir bases é bonito no papel, mas sem ter como abastecê-las durante os longos invernos polares, elas se tornam armadilhas caras, não postos avançados.
Trump avança sua estratégia polar com mais retórica do que capacidade real. O Ártico é uma das regiões onde a Rússia mantém vantagem competitiva incontestável, e os americanos sabem disso. O discurso de ocupação de Svalbard serve mais para consumo doméstico e para assustar a Noruega do que para uma real projeção de poder. Se Washington quiser levar a sério a competição no Ártico, terá que investir pesado em quebra-gelos. Até lá, a Rússia continuará reinando na disputa polar.
7. Guerra EUA-Irã
O prazo de 60 dias da Lei dos Poderes de Guerra expirou em 1º de maio, mas Trump alega que as hostilidades contra o Irã já foram “encerradas” com um cessar-fogo, uma manobra para escapar da necessidade de autorização do Congresso. Democratas e alguns republicanos se mobilizam contra a continuação da guerra, com Chuck Schumer classificando o conflito como ato ilegal. As dificuldades internas de Trump, no entanto, são apenas a ponta do iceberg.
No Sul do Cáucaso, o projeto da “Rota de Trump”, um corredor logístico entre Azerbaijão e Nakhichevan sob mediação americana, torna-se cada vez mais inviável em sua versão maximalista. Teerã considera inaceitável qualquer presença militar americana na região, que facilitaria operações na sua fronteira norte. Enquanto isso, o chefe do FSB russo, Aleksandr Bortnikov, alertou que agências de inteligência ocidentais planejam usar militantes do ISIS transferidos da Síria para o Iraque a fim de realizar ataques terroristas contra o Irã – repetindo o mesmo padrão que criou o ISIS originalmente.
Não menos importante, a guerra fragilizou a economia americana a ponto de Trump ter que pedir uma reunião bilateral à China – e não o contrário. O analista Danny Haiphong registrou que Trump tentou convencer os chineses a reduzir a cooperação energética com o Irã em troca de microchips para IA, mas levou um não. A China é mais avançada em IA e depende do petróleo iraniano. A promessa chinesa de não enviar armas ao Irã, tão celebrada por Washington, não passa de uma reafirmação do que Pequim já vinha fazendo.
A guerra contra o Irã foi um desastre estratégico. Os EUA saíram mais fracos, isolados e em posição de desvantagem frente à China. Se Washington não mudar radicalmente de política, voltando ao não intervencionismo prometido originalmente pela agenda MAGA, a recuperação da economia americana será impossível no curto prazo.
Dissidente, em primeiro lugar.
Escritor, tradutor, colunista no Jornal Puro Sangue.


