Essa onda de relativização do aborto abre reflexão para algo que começou há muitas décadas: o discurso, a mentalidade, a IDEIA de que é preciso parar de “romantizar” a maternidade, coisa que nunca me convenceu como sendo algo inocente de quem quer meramente mostrar a “maternidade real”.
O objetivo sempre foi o de incutir no inconsciente da mulher a ideia de que a maternidade é um fardo pesado demais para carregar, que o parto é um trauma terrível, que a gravidez embaranga (insira aqui qualquer menção à dimensão meramente material), que filho “dá trabalho”, que maternar te tira a liberdade etc.;
E esvaziar qualquer visão positiva, nobre, transcendente, espiritual da experiência materna.
A “desromantização” da maternidade está, ironicamente, absolutamente atrelada à incapacidade de compreender qualquer valor associado ao sacrifício (visto como um tipo de violência psicológica insuportável e intolerável) e a noção de continuidade do próprio sangue.
E a aceitação social do aborto depende justamente desse longo processo de destruição da visão sagrada que a maternidade sempre teve, e de substituir sua importância civilizacional no imaginário coletivo do povo por visões subjetivas e individualistas estritamente negativas.
Não por acaso, povos fortes honravam mães. Sabiam que delas dependia a permanência do próprio povo. E “romantizavam” a maternidade, seja lá o que isso significa.
Nenhuma civilização sobreviveu tratando a maternidade como mero acidente inconveniente da vida privada. Todas as grandes culturas compreenderam algo de sagrado no ato de gerar e proteger uma nova vida. Todas.
O curioso é que os mesmos setores (feministas, progressistas, pós-pós) que rejeitam qualquer exaltação da maternidade costumam glorificar inúmeros outros “sacrifícios” como o da mulher que dá a vida pela carreira, o da militante inteiramente devotada à causa feminista etc.
Já a mulher que encontra sentido profundo na maternidade, algo tão natural e ao mesmo tempo místico, frequentemente é vista como alienada e escrava.
O resultado dessa mentalidade já aparece em sociedades envelhecidas onde a taxa de natalidade só cai. Governos tentam conter esse colapso por meio de incentivos econômicos esquecendo completamente que uma civilização só pode sobreviver se estiver ancorada em valores profundos (religiosos, tradicionais, comunitários).
Civilizações dependem de símbolos e valores superiores capazes de convencer indivíduos de que vale a pena sacrificar algo de si em nome de algo maior.
O mundo das ideias é que precisa ser trabalhado. É preciso exatamente inverter a IDEIA, a MENTALIDADE moderna que transformou quase todo mundo em animal irracional.


