O trabalhador comum não tem tempo de esperar o dia do milagre

Respeito a opinião de alguns amigos críticos da ação policial, embora discorde veementemente. Agora, a crítica mais idiota de todas é a “mui profunda” conclusão de que “o tráfico não vai acabar”.

E quem disse que operação policial é para acabar com alguma coisa? Operação é intervenção tática, não ação estratégica. O objetivo é realmente “enxugar gelo”. É conter, não extinguir, o crime organizado. Não por acaso a ação ontem foi denominada “Operação Contenção”.

A nível estratégico, resolver o problema do crime organizado demanda, sim, políticas públicas de inclusão social, assistência governamental especial, reformas urbanas etc. O problema é que tudo isso é extremamente prospectivo e falha em responder à questão central: o que fazer AGORA com quem JÁ ESTÁ no crime?

Facção não é milícia popular de autodefesa. Bandido nenhum vai se desarmar quando o Estado oferecer ajuda à favela. Pelo contrário, a facção, que hoje vive da exploração do território, vai reagir com fogo. Só resta uma alternativa ao Estado: atuar com violência.

Não tem nada de errado no fato da polícia “enxugar gelo” subindo morro para eliminar 60, 100, 150 bandidos. É exatamente para isso que a polícia existe. Para conter o crime. Acima disso, tudo depende de ação interinstitucional ampla, envolvendo cooperação cívico-militar, público-privada e participação ativa da sociedade. Nada disso está ao alcance da polícia.

O trabalhador comum não tem tempo de esperar o dia do milagre, quando enfim o Brasil tomará jeito e as instituições resolverão lidar adequadamente com o problema do tráfico. Para quem vive nos subúrbios do Rio, o que importa é o hoje e o agora.

Ninguém mais aguenta ver a expansão das áreas de controle do tráfico. Ninguém mais aguenta ver barricadas demarcando onde o Estado pode e não pode entrar. Ninguém mais aguenta ter celular roubado por pivete que desce o morro para cometer furtos a mando do Comando Vermelho (que tem até setor de cibernética especializado em invadir aplicativos bancários de celulares roubados!).

É preciso “enxugar o gelo”. É preciso CONTER o crime. E será preciso fazer isso até o dia em que o Brasil, enfim, resolver mudar. Se for preciso eliminar fisicamente 10.000 bandidos para enfraquecer minimamente o crime organizado, que assim seja.

Lucas Leiroz
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Lucas Leiroz, membro da Associação de Jornalistas dos BRICS, pesquisador do Centro de Estudos Geoestratégicos e especialista militar.

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