Muitos insistem em olhar o tráfico de drogas apenas de cima, no caso, produção, distribuição, fronteiras, etc. Como se o problema da violência se resolvesse numa planilha de importação e exportação de entorpecentes. Esses analistas, distantes da realidade, parecem ignorar o óbvio: o inferno não está na fábrica de drogas nem nos laboratórios de química, mas na esquina do morador, no varejo que controla ruas, bairros e vidas.
Atacar o varejo não é a solução definitiva, não desmantela a estrutura do crime, mas é o que devolve algum respiro à população local. Barricadas que impedem ambulâncias, fuzis apontados para quem sai de casa, toque de recolher imposto à força, taxas extorsivas… isso é cotidiano para quem vive em áreas dominadas pelo tráfico. Ignorar isso, dizendo que operações contra o varejo “não funcionam”, é desconsiderar a vida real, é olhar o problema com distância segura de escritório, de academia ou de gabinete.
E esse é o maior defeito da esquerda. Ela insiste em encarar a segurança pública apenas por uma ótica academicista, como se fechar empresas de fachada na Faria Lima mudasse a vida de quem vive sob a ameaça diária dos territórios de varejo. Para o cidadão comum, essa abordagem cria distância e desconfiança, porque a esquerda hoje não entende que a violência real não se mede em estatísticas ou operações de gabinete, mas no medo, nas barricadas e nas taxas que o morador é obrigado a pagar para sobreviver.
O varejo do tráfico não existe apenas para vender drogas. Ele controla território, extorque e domina socialmente. Hoje, muitas facções não dependem mais do comércio de entorpecentes; dependem do poder de ocupação e das taxas que extraem de quem vive em seus domínios. Negligenciar isso é fingir que a violência é só macroeconômica, que a guerra urbana é só teoria de geopolítica do crime.
Quem rejeita o combate ao varejo por achar que não “resolve o problema estrutural”, ignora que, para os moradores daquele local, resolver parte do problema significa salvar vidas, permitir que crianças voltem à escola, que ambulâncias cheguem, que famílias deixem de pagar taxa para sobreviver. É pura desconexão da realidade.
O combate ao varejo não soluciona o problema como um todo, mas restaura o mínimo de dignidade e segurança a quem está cercado pela guerra cotidiana. E enquanto a esquerda continuar presa em análises academicistas, a população comum continuará distante, vivendo sob territórios de terror que nenhum debate de gabinete consegue alcançar.
A esquerda perdeu o diálogo sobre segurança pública com o povo. Esse é o ponto principal que afasta o trabalhador dela. Não é à toa que a esmagadora maioria da população, inclusive moradores de favelas, ficaram a favor da megaoperação e contra o discurso do governo federal.
O PT conseguiu criar um abismo entre ele e o povo em relação à segurança pública, o que pode influenciar bastante nas eleições de 2026.


