Graças à ADPF 635, o RJ se tornou um bunker nacional para o CV

A presença de criminosos de fora do estado entre os mortos e presos na megaoperação do Complexo do Alemão e da Penha não foi acaso. Foi consequência de dois fatores combinados: a geografia do Rio e o vácuo operacional criado pela ADPF 635. Esses dois elementos transformaram o estado no refúgio ideal para o crime organizado, um território onde o Estado é limitado por lei e a natureza favorece quem domina o terreno.

A ADPF 635, que restringiu as operações policiais em favelas, ao exigir comunicação prévia, justificativas e relatórios, neutralizou o fator surpresa das forças de segurança e inibiu ações táticas essenciais em territórios dominados. As facções perceberam isso rapidamente. E com a repressão aumentando em outros estados e a burocracia engessando o Rio, os faccionados entenderam que o morro virou abrigo seguro.

Somado a isso, há um componente geográfico inegável. Diferente de outras capitais, as favelas cariocas são verticais, labirínticas e cercadas por mata, com pontos de observação natural e rotas de fuga em desnível. Essa topografia transforma qualquer operação em risco extremo e, para o crime, em barreira natural de defesa. Logo, enquanto favelas planas em outros estados facilitam o cerco e o controle policial, no Rio, a geografia trabalha a favor da criminalidade.

Com a limitação imposta pela ADPF e o abrigo natural dos morros, o Rio se tornou um bunker nacional do CV. Os traficantes de fora não estavam ali por coincidência, mas foram alocados estrategicamente. Tudo indica que o Alemão e a Penha serviram de base para reuniões de planejamento, abastecimento e reorganização de comando, buscando coordenação interestadual de ações e unificação de logística.

Nesse contexto, não se trata mais de simples tráfico de drogas. O que opera hoje é uma estrutura de narcoguerrilha, com capacidade de mobilização territorial, armamento pesado, comunicação interestadual e enfrentamento direto ao Estado. As facções deixaram de agir apenas como organizações criminosas e passaram a se comportar como forças paralelas, desafiando o monopólio da violência legítima e tentando impor soberania onde o Estado hesita em entrar.

A megaoperação no Rio não foi uma ação “contra os pobres”, como a militância de condomínio tenta vender. Foi uma ofensiva contra uma rede de poder armado, articulada e expansionista, que aproveitou o enfraquecimento institucional para se reerguer como exército paralelo. Ignorar isso é fechar os olhos para o fato de que o Brasil já vive uma guerra interna, e que a omissão legal e geográfica alimentou o inimigo.

Rhainer Fernandes
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Estudante de Relações Internacionais e membro da Associação Nova Roma.

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