“Se o Rio está há décadas em guerra, é porque o país inteiro abandonou o tema da segurança pública, e isso inclui os governos federais que preferiram fechar os olhos para a falência das instituições estaduais.”
Para justificar o colapso da segurança pública no Rio, a esquerda está culpando os governos estaduais de direita, mas ignora que, durante 23 anos de governos petistas, o estado recebeu verbas federais insuficientes e nenhum plano de segurança integrado que pudesse reestruturar a polícia, reformar os batalhões, investir em inteligência ou impedir o avanço territorial das facções.
É cômodo jogar a responsabilidade sobre os governos locais quando quem detinha o caixa e o poder político nacional, no maior período de expansão do crime organizado, era o PT.
Se o Rio está há décadas em guerra, é porque o país inteiro abandonou o tema da segurança pública, e isso inclui os governos federais que preferiram fechar os olhos para a falência das instituições estaduais.
Também vale lembrar que o início da militarização do tráfico, a entrada dos fuzis no Rio e do poder de fogo pesado, aconteceu durante o governo Moreira Franco. Foi nessa época que o Estado perdeu o controle territorial das comunidades e o crime começou a se estruturar como poder paralelo. E, ironicamente, Moreira Franco, anos depois, seria abraçado pela esquerda, ocupando cargos no governo Dilma e se beneficiando da articulação política do PT.
Ou seja, o mesmo grupo político que hoje finge indignação com o caos no Rio, acolheu um dos principais responsáveis pela escalada armada das facções.
Entre os períodos dos governos Lula e Dilma, as milícias cresceram como força estruturada no Rio, vendidas à população e até a mídia como uma “autodefesa comunitária” contra o tráfico. Só que esse discurso se desenvolveu em um vácuo completo de política federal de segurança pública, e aí entra a contribuição do governo do PT. Lula não implementou um plano nacional de integração entre as polícias estaduais, nem criou uma estrutura de inteligência compartilhada. Isso deixou o estado do Rio agir por conta própria, sem suporte técnico ou recursos federais adequados, o que acabou estimulando políticas locais improvisadas, como a tolerância às milícias em favelas. Nessa época, o governo federal estava priorizando programas de inclusão social e expansão de crédito, assim, a segurança pública ficou marginalizada no orçamento. Isso impediu o Rio de reformar batalhões, modernizar armamentos e criar centros de inteligência. O resultado favoreceu as milícias, que ocuparam o vácuo estatal, oferecendo “proteção” onde o Estado não chegava.
Mesmo quando surgiram as primeiras investigações sobre grupos paramilitares formados por PMs, ex-PMs e bombeiros, não houve cobrança federal nem intervenção política. O governo Lula optou por manter aliança com Garotinho e, depois, com setores do PMDB do Rio, em nome da governabilidade nacional. Isso significou fechar os olhos para o surgimento de uma estrutura criminosa que crescia dentro do próprio aparelho policial.
Hoje, o discurso da esquerda tenta colar a imagem da milícia à direita bolsonarista, o que em parte é verdadeiro. Mas o que é omitido, é que as milícias floresceram, enriqueceram e se institucionalizaram sob governos aliados ao PT, sem nenhuma política nacional de combate a esse fenômeno.
Mas o fracasso da esquerda na segurança pública não se restringe ao Rio. Nos estados onde o PT governa há mais tempo, como Bahia e Ceará, o cenário é ainda mais alarmante. Sob uma política de segurança pública passiva e ideologizada, os governos petistas apostaram na redução da letalidade policial e em programas de “prevenção social”, mas sem estrutura de inteligência, sem integração entre as polícias e sem controle penitenciário efetivo.
Na Bahia, o resultado é o pior possível. O estado lidera o ranking de homicídios do país há anos, com recordes de execuções, domínio territorial e presença consolidada de diferentes facções que rivalizam intensamente.
No Ceará, a expansão da GDE transformou bairros inteiros em zonas sob comando criminoso, enquanto o governo manteve a postura de neutralidade operacional, tentando conter o problema com discursos sobre pacificação e inclusão social.
O erro é estrutural, e a esquerda trata a segurança pública como um debate moral, e não como política de Estado. Fala em “combater causas sociais”, mas abandona o campo da força, da inteligência e da soberania, apontando o dedo para adversários políticos, enquanto ela mesma contribuiu a maior parte do tempo para isso acontecer. O resultado é um país em que o crime avança, o cidadão perde espaço e o Estado negocia o território que deveria proteger.
Não estou defendendo os governos de direita no Rio, que foram desastrosos. Mas não tem como jogar tudo na conta deles, quando os mesmos estavam alinhados a setores de esquerda e ao próprio PT no governo federal, que em 23 anos não apresentou nenhum plano eficiente para a segurança pública.


