Agora, a estratégia narrativa da esquerda é culpar a “milícia” e não as facções pela violência no Rio, como se ainda existisse distinção entre esses grupos. Na prática, milícias e facções hoje integram um mesmo corpo do crime organizado.
Essa separação deixou de existir após a morte do Ecko, que ainda mantinha certo afastamento do tráfico. Com sua morte, o cenário miliciano se fragmentou e Carlinhos Três Pontes ocupou o vácuo de poder. A partir daí, a milícia se incorporou às facções e as disputas territoriais se intensificaram.
Nas áreas onde o CV e o TCP avançaram sobre zonas antes dominadas por milícias, a estratégia foi cooptar os milicianos locais, transformando-os em braço logístico do tráfico.
Hoje, as fronteiras entre facção e milícia praticamente desapareceram. O que existe é uma rede de poder com funções complementares em que o tráfico mantém o comércio de drogas e o controle do armamento, enquanto a milícia oferece fachada legal, estrutura de controle e infiltração institucional. São engrenagens de um mesmo sistema.
A narrativa de desviar o foco exclusivamente para a milícia serve, portanto, para blindar as facções, porque sustenta a ideia falsa de que há uma separação. Desde a morte do Ecko, essa divisão não existe mais. É uma estratégia discursiva de autoridades, políticos e figuras públicas associadas ao crime, que precisam manter o teatro de uma guerra entre “dois lados” para que o verdadeiro poder do crime organizado continue intacto.


